“Há política de extermínio da juventude no País”, afirma Lindbergh

Lindbergh Farias



As questões ligadas à juventude no Brasil sempre foram temas de interesse do senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e líder do movimento dos Caras Pintadas em 1992, Lindbergh atualmente é relator da Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado do Assassinato de Jovens no Brasil.
Em entrevista exclusiva à Agência PT, Lindbergh adiantou o conteúdo do relatório da CPI, que será entregue nesta quarta-feira (8). Segundo o senador, o objetivo da Comissão foi identificar as causas e os principais responsáveis pela violência letal da nossa juventude, a fim de criar mecanismos para prevenir e combater o genocídio de jovens negros no Brasil.
“O que existe hoje no País é uma política de extermínio da nossa juventude, e em especial da nossa juventude negra, pobre, moradora das periferias. Hoje nós temos no Brasil uma média de 60 mil homicídios por ano, 50% desses são jovens, 77% dos jovens são negros e moradores das periferias”, afirmou.
Para exemplificar o caráter racista desse extermínio, o senador lembrou o caso ocorrido em 28 de novembro de 2015, quando a Polícia Militar do Rio de Janeiro disparou mais de 100 tiros contra o carro onde estavam cinco jovens, todos negros.
“Eles foram assassinados pela polícia. Viram cinco negros no carro e atiraram. Foram centenas de tiros. Eles foram completamente executados. Eles tinham saído de casa para fazer um lanche”, repudiou.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Lindbergh disse que, durante a CPI, teve oportunidade de conversar com muitas mães de vítimas e com diversos moradores das periferias e destacou que o sentimento é um só: “moradores das periferias brasileiras, em especial as mães, ficam apavorados quando seus filhos saem de casa. Principalmente se forem negros. Eles sabem, têm essa consciência do perigo da questão racial no momento que a gente vive”.
Segundo o petista, a juventude brasileira está sendo exterminada pela polícia, pelas milícias, pelos traficantes. Entre as causas desse extermínio, Lindbergh aponta os autos de resistência, a militarização das PMs e “o fracasso dessa atual política de guerra às drogas”.
Autos de resistência
Para o senador, é preciso investigação nos casos de abusos policiais, “porque a lógica dos autos de resistência é a lógica que se estabelece na prática”.
Segundo ele, há inúmeros crimes que são cometidos por abusos de autoridades policiais que ficam registrados como autos de resistência e, por isso, não se tem investigação, “porque só dessa forma vamos inibir uma prática que é a da execução”.
“Tem gente que acha que resolve o problema da criminalidade matando as pessoas. O velho ‘bandido bom é bandido morto’. Tem essa ideologia presente em setores das polícias e infelizmente isso é alimentado pela falta de investigação”, completou.
Guerra às drogas
Já a política de guerra às drogas, na avaliação de Lindbergh, “não tem servido para nada, pois não evita o consumo de drogas”.
“Acho que está chegando a hora de se discutir essa questão aqui no Brasil. Sabe quantas pessoas morreram ano passado vítimas de tráfico de drogas e confrontos por questões de drogas no Uruguai? Nenhuma. Matamos dezenas de milhares por ano. Quase 90% da população carcerária feminina hoje é ligada à questão das drogas”, ressaltou
O senador afirmou ter consciência que esse tema é complexo, mas considera que é preciso ter coragem para ao menos iniciar a discussão. E deu como exemplo vários estados norte-americanos que já estão fazendo isso.
“É a discussão sobre a legalização de drogas. Sei que é polêmico, mas a gente tem que entender o seguinte: a gente está matando essa nossa juventude. É muita gente morrendo. Pode-se criar uma discussão sobre legalização e criar campanhas contra o consumo. O fato é que hoje a guerra às drogas não está funcionando”.
Desmilitarização
Outro assunto polêmico abordado pelo senador é a desmilitarização da polícia. Lindibergh é autor da PEC 51, que trata do tema.
O senador ressaltou que a polícia brasileira é preparada para a guerra e para o confronto. “É uma polícia que tem pouquíssimo preparo para fazer a lógica do policiamento de proximidade, do policiamento comunitário”, acrescentou.
Outro ponto destacado por ele é que apenas no Brasil existem dois tipos diferentes de polícia: a que faz vigilância preventiva e ostensiva, e outra que faz o trabalho de investigação.
Foto: Alice V/Democratize
Foto: Alice V/Democratize
“Em todo lugar do mundo tem ciclo completo. É a mesma polícia que faz o trabalho de vigilância preventiva e ostensiva, também faz o trabalho de investigação. É o policial lá da ponta, e ele pode investigar. Tem um a lógica maior. Então nós temos que mexer no nosso sistema de segurança pública como um todo”, explicou.
Para acabar com esse genocídio da juventude brasileira, o senador aponta, também, para um Plano Nacional de Redução de Homicídios de Jovens.
“Primeiro ponto é o pacto nacional pela redução de homicídios, estabelecendo metas para estados, municípios e governo federal. Esse é um ponto fundamental e o passo inicial”, enfatizou.
Por Luana Spinillo, da Agência PT de Notícias

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